quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO E AS CONFUSÕES EM TORNO DO GÊNERO

A palavra gênero tem origem inglesa (gender) e foi utilizada inicialmente pelas feministas americanas para “rejeitar o determinismo biológico implícito no uso do termo sexo ou diferença sexual. O termo gênero enfatizava igualmente o aspecto relacional das definições normativas da feminilidade” (SCOTT, 1995: 75). Na década de 1980 a historiadora Joan Scott foi uma das primeiras a defender o uso do termo como “uma categoria útil de análise histórica”.
Os novos movimentos sociais que insurgiram a partir da década de 1960  (feminismo, direitos civis, movimento hippie, movimento estudantil, movimento pacifista, etc.) trouxeram para cena política novos atores sociais, até então invisibilizados pela historiografia oficial. As mulheres e o seu fazer social foram historicamente um dos sujeitos que mais sofreram com as práticas historiográficas tradicionais que privilegiaram as grandes narrativas e os grandes heróis.
O ano de 1975 foi considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Ano Internacional da Mulher e durante a década de 1970 outros organismos internacionais como a UNICEF levantaram bandeiras de redução da pobreza e da mortalidade infantil nos países empobrecidos. Diante deste objetivo, governos e movimentos sociais desenvolveram estratégias de atendimento às mulheres e crianças principais vítimas das injustiças sociais. No Brasil a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e das ações pastorais, principalmente a pastoral da criança e os clubes de mães que espalharam-se pela periferia do Brasil, priorizou o atendimento à mulher e à infância como forma de redução da pobreza e da mortalidade infantil.
Podemos dizer que tais estratégias tinham a perspectiva do gênero porque protegendo mulheres e crianças, estavam protegendo a família. A partir da Constituição de 1988 as temáticas de gênero e sexualidade foram fortalecidas no cenário nacional diante dos movimentos sociais e da produção acadêmica. O governo de Fernando Henrique Cardoso frente as pressões nacionais e internacionais “aderiu uma agenda de gênero e sexualidade destinada a eliminar a discriminação contra a mulher, juntamente com as Metas do Milênio e da Conferência de Dakar. Em 2000, o Brasil foi um dos 155 signatários da Declaração de Jomtien, elaborada na Conferência Mundial de Educação para Todos (Tailândia) e ratificada na Cúpula Mundial de Educação para Todos, em Dakar (Senegal).
A terceira meta do Projeto Metas do Milênio refere-se à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres, prevista como medida necessária  para a melhoria das condições de vida, pela ONU.” (Revista Educação e Sociedade: 2011: 526-527). Este ano vários municípios do Brasil têm elaborado os seus Planos Municipais de Educação cujo objetivo é planejar a educação pelos próximos
dez anos, mas o foco das discussões está longe das questões de financiamento da educação pública. Os meios de comunicação têm dado grande visibilidade a chamada “ideologia de gênero”, termo que tem causado grande confusão, primeiro porque o termo não existe enquanto conceito, ou seja, não tem significado algum; segundo porque esta confusão conceitual favorece a disputa política e ideológica que tem se travado em torno do Plano Municipal de Educação. Alguns grupos mal intencionados têm espalhado que o termo “gênero” é uma invenção de grupos interessados em destruir a família e a infância brasileira.
Tais afirmações têm impedido um debate franco e esclarecedor em torno da importância do Plano Municipal de Educação e em torno do próprio conceito de gênero e dos desafios que a escola pública necessita enfrentar para adequar sua prática pedagógica às necessidades contemporâneas.
Texto/Foto: Maria Efigênia Ribeiro Pereira DOT-P DRE-SM

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