Quarto de despejo – diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
22 de julho de 1955
Eu sou muito alegre. Todas as manhãs eu canto. Sou como as
aves, que cantam apenas ao amanhecer. De manhã eu estou sempre alegre. A
primeira coisa que faço é abrir a janela e contemplar o espaço.
Quarto de despejo – diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
22 de julho de 1955
... Eu gosto de ficar dentro de casa, com as portas
fechadas. Não gosto de ficar nas esquinas conversando. Gosto de ficar sozinha e
lendo. Ou escrevendo! Virei na rua Frei Antonio Galvão. Quase não tinha
papel.(...) Enchi dois sacos na rua Alfredo Maia. Levei um até ao ponto e
depois voltei para levar outro. Percorri outras ruas. Conversei um pouco com o
senhor João Pedro. Fui na casa de uma preta levar umas latas que ela tinha
pedido. Latas grandes para plantar flores. Fiquei conhecendo uma pretinha muito
limpinha que falava muito bem. Disse ser costureira, mas não gostava da
profissão. E que admirava-me. Catar papel e cantar.
Quarto de despejo – diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
7 de junho de 1958
Os meninos tomaram café e foram a aula. Eles estão alegres
porque hoje teve café. Só quem passa fome é que dá valor a comida.
Eu e Vera fomos catar papel. Passei no Frigorifico para
pegar lingüiça. Contei 9 mulheres na fila. Eu tenho mania de observar tudo,
contar tudo, marcar os fatos.
Encontrei muito papel nas ruas. Ganhei 20 cruzeiros. Fui no
bar tomar uma média. Uma para mim e outra para a Vera. Gastei 11 cruzeiros.
Fiquei catando papel até as 11 e meia. Ganhei 50 cruzeiros.
... Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para
defender o Brasil porque eu lia a Historia do Brasil e ficava sabendo que
existia guerra. Só lia os nomes masculinos como defensor da patria.
Quarto de despejo – diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
7 de junho de 1958
Quando o arco-iris surgia eu ia correndo na sua direção. Mas
o arco-íris estava sempre distanciando. Igual os politicos distantes do povo.
Eu cançava e sentava. Depois começava a chorar. Mas o povo não deve cançar. Não
deve chorar. Deve lutar para melhorar o Brasil para os nossos filhos não sofrer
o que estamos sofrendo. Eu voltava e dizia para a mamãe:
- O arco-iris foge de mim.
... Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As
margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é
considerado marginais. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto
dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos. (...)
Quarto de despejo – diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
9 de junho de 1958
... Eu já estava deitada quando ouvi as vozes das crianças
anunciando que estavam passando cinema na rua. Não acreditei no que ouvia.
Resolvi ir ver. Era a Secretaria da Saúde. Veio passar um filme para os
favelados ver como é que o caramujo transmite a doença anêmica. Para não usar
as aguas do rio. Que as larvas desenvolve-se nas aguas(...) Até a agua... que
em vez de nos auxiliar, nos contamina. Nem o ar que respiramos, não é puro,
porque jogam lixo aqui na favela.
Mandaram os favelados fazer mictórios.
Quarto de despejo – diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
11 de junho de 1958
... Já faz seis meses que eu não pago a agua. 25 cruzeiros
por mês. E por falar na agua, o que eu não gosto e tenho pavor é de ir buscar
agua. Quando as mulheres aglomeram na torneira, enquanto esperam a sua vez para
encher a lata vai falando de tudo e de todos. (...) Fiz o café e fui carregar
agua. Olhei o céu, a estrela Dalva já estava no céu. Como é horrível pisar na
lama. As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários
(...).
Quarto de despejo – diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
Sobre a sua obra, afirma Carolina:
Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados.
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