segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Entre os livros e as estrelas

          Nasci na periferia de uma grande metrópole, filho de pais trabalhadores, tive uma vida muito intensa, cresci brincando na rua, sonhava estudar as estrelas... o céu me intrigava, milhares e milhares de estrelas brilhando... o sol, a órbita dos planetas, tudo funcionando sem a intervenção de um humano.
Frequentei a escola pública, lá tive muitos professores que marcaram minha vida, tanto pelo amor, quanto pela dor. Concluí os estudos, fui crescendo e, como todo adulto, pelas dificuldades da vida, os sonhos foram substituídos pela razão. Decidi ter uma carreira sólida, após a faculdade, batalhei o concurso público e me efetivei como professor.
            Iniciei o ofício em uma escola da periferia. Tudo estava exatamente como antes, como quando passei pelas mesmas carteiras escolares, porém, eu tinha grandes sonhos e vontade de mudar o mundo...
Muitos educandos eram incríveis, outros, nem tanto. Todos com suas características peculiares, uns filhos de pedreiros, outros de trabalhadores do comércio e indústrias, de domésticas, de pintores, de carpinteiros, de donos de pequenas mercearias, outros órfãos, filhos de detentos, havia uma imensa diversidade... Eu, iniciante na carreira, cheio de expectativas e vontade de transformar, percebia grandes possibilidades de mudanças e de conseguir qualificar a realidade.
          O tempo passou... a REALIDADE apresentou-se  mais imperiosa do que meus sonhos de início de carreira... Fui ficando rancoroso, com as mazelas do cotidiano de professor.  Crescia indomável a vontade de voltar a sonhar, na verdade, eu queria sumir do planeta. Voltei para casa, decidido a mudar de profissão, a mudar a minha vida, a resgatar o prazer de contemplar estrelas, como em minhas lembranças de criança.
         Após uma noite de sono, tudo planejado! Já na escola, em minha última aula, promessa feita para meus alunos:
        — Vou atrás dos meus sonhos, não voltarei para a escola nunca mais. Enfim, liberto e libertação!
Executando o planejado, aluguei um barco e, com pouca bagagem, iniciei minha jornada.
No meio do percurso, ouço vozes vindas da direção do dormitório do barco, ressabiado, mas, ciente da necessidade, fui verificar.  Ao abrir a porta do dormitório, um susto! Na verdade, um pesadelo!!! Um grupo de alunos amotinados lá! Olhos vibrando de empolgação, diante de uma SUPER AVENTURA!
           Desesperado, perguntei o que faziam ali, e um, mais articulado, respondeu que se interessaram também pela história de aprender a contemplar as estrelas e resolveram me acompanhar. Ainda atordoado, sem ter muito o que fazer, indignado, disse que levaria todos para o continente e que a brincadeira acabaria ali.
           Na volta, teve inicio uma tempestade muito forte, ocorreu um acidente que danificou o manche do barco. Ficamos à deriva, flutuando de um lado para o outro. Fomos conduzidos pelos fortes ventos, para uma região de muitas pedras que estragaram também o casco do barco. Por sorte, estávamos já próximos à praia. Conseguimos correr e nos abrigar na mata que ali existia, todos em segurança.
         Após uma noite de pouco sono, acordamos e percebemos que estávamos em uma ilha deserta, sem comunicação e, do barco, só restavam destroços, algumas caixas de alimentos e uma mala com objetos para urgência, sobrevivência e primeiros socorros.

Autoria: CP Marcelo Alexandre Merce – EMEF Carlos Correia Mascaro

Nenhum comentário:

Postar um comentário